Newsletter AgriSafe · Edição #13
Recuperação judicial no agro recuou 20,7%. O próximo capítulo pede planejamento.
por Renato Takamura · · publicação semanal · 5 min de leitura
A Serasa Experian registrou 448 pedidos de recuperação judicial no agro no segundo trimestre de 2026, 20,7% abaixo dos 565 do mesmo período de 2025. O recuo interrompe a sequência de altas nos segundos trimestres de 2023, 2024 e 2025. Entre produtores pessoa jurídica, a queda foi de 34,2%.
É um fato, e um fato positivo. Mas ele conta só uma parte da história.
O capítulo muda de formato
Nas últimas semanas, tenho ouvido de advogados e de empresas do setor uma palavra que aparecia pouco: recuperação extrajudicial. E quase sempre em empresas grandes.
A leitura não é só minha. Para Lucas Drummond Alves, da securitizadora Opea, a tendência para 2027 é a recuperação extrajudicial ganhar espaço entre as grandes empresas, enquanto a judicial se concentra nas menores e nos produtores. O caso público mais conhecido é o da Raízen, que reestruturou cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras pela via extrajudicial, com plano homologado em julho.
O formato tem uma vantagem clara: a renegociação acontece com os credores financeiros, enquanto fornecedores e funcionários seguem operando normalmente.
Onde o ajuste ficou visível: as químicas
Na indústria de defensivos, o ano exigiu ajuste.
- Na Syngenta, as vendas de proteção de cultivos foram de US$ 3,4 bilhões para US$ 3,1 bilhões no terceiro trimestre. A empresa cita juros altos e clima extremo adiando compras na América Latina.
- Entre 12 fabricantes chinesas listadas, 8 fecharam o trimestre com resultado atribuível negativo, segundo levantamento a partir dos relatórios das companhias.
Minha leitura: os resultados das químicas tendem a estabilizar depois da reorganização das estruturas corporativas, movimento que já acompanhamos de perto. E, na base que a AgriSafe lê diariamente no Diário de Justiça Eletrônico Nacional, os novos pedidos publicados cresceram em todos os setores entre setembro e outubro. O ajuste deixou de ser de um segmento e passou a ser do ciclo.
Cinco incertezas, um método
Por isso, encerro aqui o capítulo da recuperação judicial com uma mensagem simples: estamos em um período que exige muito planejamento. São cinco frentes ao mesmo tempo.
- Juros. O Copom decide nesta quarta, com a Selic em 13,75%. As opções da B3 indicavam 63,1% de chance de manutenção. A curva futura já mudou de patamar após a eleição.
- Insumos e energia. Com o Brent perto de US$ 117 e cerca de 85% dos fertilizantes importados (MAPA), não há perspectiva de queda no custo dos insumos.
- Ambiente fiscal. A Lei Complementar 224/2025 reduziu em 10% os benefícios fiscais federais a partir de 2026. E a equipe econômica estuda cobrar IOF sobre títulos isentos como LCA e CRA, ainda sem decisão.
- Clima. A NOAA elevou para 97% a chance de um El Niño muito forte. A tendência é mais chuva no Sul e estiagem em partes do Norte e do Nordeste.
- China e Estados Unidos. Os dois maiores mercados ditam o preço das commodities. O acordo prevê compras chinesas de US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos.
Nenhuma delas se resolve sozinha. Como vimos na Edição #12, planejar é isolar cada variável e medir o impacto de cada uma no resultado. Quem faz essa conta antes negocia melhor depois.
Onde nós entramos
É o que fazemos na AgriSafe: acompanhamos as publicações judiciais, a base cadastral da Receita Federal e a lavoura por satélite, e cruzamos esses sinais com a carteira de gestoras, securitizadoras, revendas e indústrias. Sinal lido cedo vira conversa, e conversa a tempo vira retorno.
E há uma janela aberta: a renegociação pela MP 1.376 vai até 12 de novembro.
A pergunta que fica
Das cinco incertezas, qual pesa mais no planejamento da sua carteira para 2027?
Na próxima edição: câmbio e soja em movimento. Quando travar preço gera retorno, e quando esperar custa caro.
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