Newsletter AgriSafe · Edição #12
Reeleição definida: o mercado reprecificou o Brasil para os próximos quatro anos
por Renato Takamura · · publicação semanal · 6 min de leitura
Nota ao leitor: esta é uma edição extraordinária. A edição sobre recuperação judicial no agro, anunciada na semana passada, sai na próxima segunda.
O que é fato
- Resultado: o Tribunal Superior Eleitoral proclamou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
- Câmbio: na abertura desta segunda, o dólar comercial subiu mais de 12%, para cerca de R$ 5,60. Na sexta, havia fechado a R$ 4,99.
- Bolsa: na primeira hora, o Ibovespa recuou 10% e a B3 acionou o circuit breaker, o primeiro desde março de 2020.
- Juros: o DI para janeiro de 2031 foi a cerca de 14,46%, contra 12,58% na sexta.
- Petróleo: o Brent fechou a sexta a US$ 116,93, o maior nível desde abril, com o conflito no Oriente Médio.
- Agenda: Copom em 3 e 4 de novembro, com a Selic em 13,75%. Renegociação pela MP 1.376 até 12 de novembro.
Os números são do momento da abertura e devem oscilar ao longo do dia.
O que é leitura de mercado
O mercado reprecificou o ambiente para o novo ciclo de quatro anos. Analistas atribuem o movimento principalmente ao risco fiscal; outros veem oportunidade, dada a taxa de juros elevada e a exposição do país a commodities.
Cinco ondas, a mesma lição
Não é a primeira vez que o câmbio muda de patamar de uma hora para outra. A história recente do agro tem cinco episódios parecidos:
| Episódio | Dólar (Banco Central) | Quem surfou a onda | Quem ficou exposto |
|---|---|---|---|
| 1999 · maxidesvalorização | R$ 1,21 → R$ 2,16 | Quem produzia e vendia: soja em reais +32%, com o preço lá fora −13% (IPEA) | Quem contava com mais dólares: a receita agro em dólar até caiu em 1999 (IEA-SP) |
| 2002 a 2006 · choque eleitoral e volta do câmbio | R$ 3,96 (out/2002) → R$ 2,06 (mai/2006) | Quem tinha margem: soja em reais +43% e +26% em duas safras (IPEA) | Quem dobrou de área com dívida no auge e barter atrelado ao dólar, quando o câmbio voltou |
| 2008 · crise global | R$ 1,56 → R$ 2,50 | Quem esperou para comprar insumo: ureia 36% mais barata em 2009 (Cepea) | Quem comprou fertilizante no pico (ureia +114% em 12 meses, IEA-SP) e dependia do crédito das tradings |
| 2015 e 2016 · recessão | R$ 2,69 → R$ 4,19, Selic a 14,25% | Quem comprou insumo cedo: 91% dos insumos de 15/16 em MT a R$ 2,92/US$ (IMEA). O PIB do agronegócio cresceu com o país em recessão (Cepea/CNA) | Quem tinha investimento contratado em dólar |
| 2020 a 2025 · o ciclo completo | Pico de R$ 5,94 (mai/2020) | Quem travou margem: a soja passou de R$ 100 e depois de R$ 200 por saca (Cepea) | Quem se alavancou em 2021 e 2022: inadimplência do rural PF a taxas de mercado de 0,36% (jun/2022) para 17,56% (ago/2026); recuperações judiciais de 534 (2023) para 1.990 (2025) (Banco Central; Serasa) |
A lição se repete. O câmbio protege a margem em reais, mas não cria dólares. O momento da compra de insumo decide boa parte do resultado. E quem se alavanca no topo fica exposto quando o ciclo vira, porque o câmbio sempre volta.
Minha leitura: saber jogar o jogo
Esta é a parte de opinião desta edição.
Não espero um impacto do tamanho de 1999, quando o dólar subiu cerca de 79%. O movimento de hoje é de cerca de 12%. Mas a direção é a mesma: o câmbio deixa o produto brasileiro mais competitivo. E o principal comprador já está aqui. Em 2025, o Brasil respondeu por 73,6% da soja importada pela China, contra 15% dos Estados Unidos (Alfândega da China). Com o real mais fraco, a soja brasileira chega ainda mais competitiva à China, frente à americana.
Pelo desenho de política econômica que o mercado começou a precificar, espero também pressão de alta no preço dos alimentos, puxada pelo câmbio, pela energia e pelas matérias-primas.
Por isso, a preocupação central é uma só: que o produtor tenha margem. Com margem, o lucro em termos absolutos cresce. O mesmo câmbio que encarece o insumo em reais, e cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados (MAPA), valoriza a soja exportada. A conta precisa ser feita dos dois lados, porque o câmbio é o mesmo.
O pano de fundo tem um desafio a mais: o petróleo. Com o Brent no maior nível desde abril e o gás natural europeu 57% mais caro, segundo a Yara, o custo de fertilizantes e defensivos tende a não cair. Somado ao câmbio, isso reforça a importância de planejamento e cautela, para não sofrer com a volatilidade da commodity.
Planejar, aqui, é isolar e sensibilizar cada variável (câmbio, preço da soja, custo do insumo, juros) e medir o impacto de cada uma no resultado final. Um exercício ilustrativo, por hectare de soja:
| Câmbio (R$/US$) | Receita | Custo | Margem | Margem % | Margem x sexta |
|---|---|---|---|---|---|
| 4,99 (sexta) | R$ 8.098 | R$ 5.800 | R$ 2.298 | 28,4% | base |
| 5,60 (abertura) | R$ 9.088 | R$ 6.190 | R$ 2.898 | 31,9% | +26% |
| 5,60 com custo 10% menor | R$ 9.088 | R$ 5.571 | R$ 3.517 | 38,7% | +53% |
| 5,60 com soja 5% mais barata em Chicago | R$ 8.634 | R$ 6.190 | R$ 2.444 | 28,3% | +6% |
Premissas: 55 sacas por hectare (IMEA); soja a US$ 29,50 por saca (Cepea/Esalq Paraná, a R$ 4,99); custo de R$ 5.800 por hectare (ordem de grandeza do custo operacional do IMEA para 2026/27), 55% em insumos cotados em dólar; sem dívida em dólar.
A leitura: a desvalorização funciona como uma alavanca a favor de quem tem estrutura de capital estável e consegue se tecnificar, reduzindo o custo do produto vendido. E a última linha mostra por que cada variável precisa ser medida em separado: o preço em Chicago também conta.
Para quem já está em atraso, a alavanca funciona ao contrário. Quando o serviço da dívida consome a margem, o câmbio não vira lucro. Chega primeiro o custo do dinheiro: juros longos mais altos, crédito mais seletivo e o insumo da próxima safra mais caro, ainda por financiar. É assim que a estrutura de capital se desgasta, como a tabela das cinco ondas mostrou em 2004 a 2006 e em 2023 a 2025.
Para esses casos, a prioridade é renegociar agora. O tempo pesa mais para este perfil do que para qualquer outro, e a janela da MP 1.376 fecha em 12 de novembro.
Em termos percentuais, o trabalho é defender a margem:
- Produzir com mais eficiência: cada ganho de produtividade dilui o custo em reais.
- Buscar insumos com melhor custo-benefício: como vimos na Edição #11, bioinsumos já crescem cerca de 10% em volume e o uso de sementes salvas aumenta.
- Planejar a comercialização: travar preço quando o câmbio favorece.
Não é hora de desespero. É hora de saber jogar o jogo.
Três frentes para esta semana
- Isolar e sensibilizar cada variável da carteira: câmbio, preço da soja, custo do insumo e juros, tomador a tomador.
- Aproveitar a janela de preço: para quem tem soja a fixar, o câmbio abre espaço para travar margem.
- Priorizar quem já está em atraso: renegociar agora, dentro do prazo da MP 1.376. Com juros longos mais altos, a conversa estruturada hoje custa menos do que amanhã.
Quando os preços mudam rápido, quem conhece a própria carteira e o próprio campo decide com calma. É para isso que existe a informação que a AgriSafe entrega a gestoras, securitizadoras, revendas e indústrias.
A pergunta que fica
Na sua carteira, quem amplia e quem aperta a margem com este câmbio?
Na próxima edição: recuperação judicial no agro. Os sinais que aparecem meses antes e como transformá-los em decisão a tempo.
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